
— Lady Gaga, qual é a músicaaa?
Arrancar a língua de um cara é mais difícil do que arrancar um olho. Tive que fazer o D.S. desmaiar, dando vários golpes na cabeça.
A cozinha da casa de D.S. era enorme e tinha todos os tipos de facas. Dentro de um closet de ferramentas arranjei um alicate. Com o alicate puxei a língua de D.S. para fora o máximo possível. Eu não sabia que uma língua puxada com força por um alicate crescia daquele jeito, parecia-me ter uns trinta centímetros. Foi fácil decepá-la com a afiada faca da cozinha.
Eu sabia que arrancar os olhos de um sujeito não era fácil, por isso me contentei em furar repetidamente com a faca os dois olhos de D.S.
Ia cortar também os colhões dele, mas estava cansado. Encostei a Glock no nariz e abri um buraco de mina. Depois dei um tiro na têmpora esquerda e outro tiro na têmpora direita e outro tiro no seu peito na altura do coração. Finalmente com a faca de cozinha cortei as suas duas carótidas.
Antes de ir embora fiquei olhando para o corpo, para me certificar de que ele estava morto. Mas a medicina moderna fazia milagres. Vasculhei a casa toda até que encontrei num armário da copa vidros de álcool. Ensopei o corpo de D.S. de álcool e acendi. Criei uma bela fogueira, que foi se propagando pelos móveis da sala.
Fiquei acordado a noite inteira, pois fui para a cama com um livro. Ler me tira o sono e só parei quando cheguei à última página e já era de manhã e o livro era ruim. Merda.
ÁREA RESERVADA PARA FUMANTES
Pronto. Está no shopping. Um casal à base de antidepressivos canta músicas pseudo-natalinas no palco mambembe montado no térreo. Adultos e crianças achatam as bochechas no vidro do pet shop e fazem óóóó enquanto contemplam um filhote de shih tzu cheirar o cu de outro. Faça o seguinte: apanhe seu cappulatte mocha spermatto venti no Starbucks, passe pela Kopenhagen, faça a curva e suba as escadas rolantes. H.Stern, Cavalera, Kipling. Pronto: a Livraria Cultura.
Na roda de lançamentos, notará um livro do Rubem Fonseca. Aliás, dois. Pelo preço de um. O quê? A Companhia das Letras dando brinde? Nada, o Rubem Fonseca mudou de editora. Mais fácil o morcego doar sangue que a Companhia doar livro.
A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro vem de presente. Um conto requentado, publicado em mil-novecentos-e-araci-de-almeida, reeditado em “projeto arrojado”, com fotos de um tal Zeca Fonseca, provavelmente filho do homem.
Nepotismo é mato.
Depois que o homem apareceu, Raimundo passou a sofrer de insônia, a ter dores de cabeça e a emitir gases intestinais de odor mefítico que queimam seu cu ao serem expelidos.
— Opa! Aí, não.
Céu de origamis é a punheta literária de um velhinho com ilusões de grandeza. Os diálogos são inverossímeis, fora de qualquer realidade que não a da Garcia-Rozalândia, um mundo mágico onde as pessoas se analisam mutuamente o tempo todo, toda hora, sem parar, nunca.
No caso de Marcos há um complicador: ele é ou foi uma pessoa muito fechada. Não que seja ranzinza, mal-humorado ou desagradável com os outros; ao contrário, sempre foi afável e de contato suave, mas tem uma característica que o torna quase inacessível: não fala. Às vezes passa um dia inteiro sem falar. A impressão que dá é de que tem um interlocutor interiorizado com quem mantém uma conversa extensa e intensa. Essa fala interior lhe basta, ele prescinde do outro exterior, e essa interioridade é impenetrável.
— Definitivamente, não sei. Podem surgir boas oportunidades em outros países. Até mesmo nos Estados Unidos. Uma coisa é o meu exercício profissional, outra é a minha cidadania, e outra ainda é a direção do meu afeto. Pessoalmente, meu único vínculo afetivo com o Brasil é você. Não tenho amigos aqui, não tenho parentes, não conheço ninguém, a única coisa que tenho é uma espécie de mito de origem. Nos Estados Unidos, tenho minha mãe, meu padrasto, meus amigos de infância, meus amigos e colegas de universidade, além da vivência da cultura americana. Às vezes me surpreendo de estar falando português o tempo todo. A máxima “minha língua, minha pátria” faz de mim um bipátrida, um ser que não existe no dicionário.
Existe no dicionário, sim, Garcia-Roza. Procura na letra pê.
Pedante, pretensioso, pentelho.
— Não tomem um quadro esquemático e ficcional por uma conclusão sobre a culpabilidade de Adriana Rosalbo. Uma conjectura, por mais plausível que seja, continua sendo conjectura.
— Eu!
— Eu! Eu!
— Não, eu, eu!
— Eu!
— Eu!
— Sou eu, sou eu!
Claro que o mesmo não acontecia com sua bizarra estante feita apenas de livros dispostos em fileiras verticais apoiadas sobre fileiras horizontais, dispensando as colunas e prateleiras de madeira de uma estante de verdade. Sua estante-só-livros, como ele dizia, era acrescida de novos volumes até atingir o ponto de saturação imposto pelas duas paredes laterais mais o piso e o teto. Faltava pouco para isso acontecer.Um cara que acha essa merda de estante-só-livros uma coisa tão, mas tão fantástica que a cita em oito romances?
— Primeiramente, gostaria de parabenizar a Band pela iniciativa e agradecer o convite. Boa noite ao telespectador em casa e obrigado pela atenção. Boa noite, Boris. Boa noite, colegas candidatos. Bem, São Paulo é uma cidade complexa, de grande potencial econômico e problemas sérios. A título de exemplo: a saúde está sucateada, a educação vem acumulando problemas gravíssimos das gestões anteriores, o trânsito chegou a patamares caóticos, acabando de vez com a paciência, que já é grande, do motorista...
— 1 minuto, candidato.
— ...o transporte público é, se me permite parodiá-lo, Boris, uma vergonha, o cidadão comum, que acorda cedo todos os dias para trabalhar, sabe muito bem das condições do transporte público no nosso município, o problema da poluição é grave, está na agenda de todas as nações ambientalmente preocupadas, hoje, no mundo...
— 30 segundos, candidato.
— ...enfim, nossa cidade precisa de pulso firme e capacidade decisória do próximo candidato a ocupar a cadeira de prefeito. Eu, caso seja eleito, e acredito que o serei, sancionarei, como medida emergencial, a reabertura imediata do Bahamas, importante complexo balneário de entretenimento adulto de São Paulo, pois o cidadão, pagador dos seus impostos, e também o turista, que vem à cidade e deve ser recebido de braços abertos, têm o direito...
— Seu tempo acabou, candidato.
— ...de foder uma bocetinha. Obrigado.
Ele a sodomizava com ferros, com esses vibradores dentados que ofereciam aos clientes no Château Meguru? Eu sabia que a imagem da menina má, nua, de quatro, com o estômago inchado por aqueles pozinhos, soltando saraivadas de peidos porque essa visão e esses ruídos e aromas produziam ereções no gângster japonês — só nele, ou também oferecia esses espetáculos aos seus asseclas? —, iria me perseguir por meses, anos, talvez pelo resto da vida.Falaram muito das Travessuras da menina má. Muito. Na época, eu era mão-de-obra escrava na Livraria da Vila, trabalhando dez dias seguidos a cada folga e contrariando uma meia dúzia de leis trabalhistas. Junto com O caçador de pipas e A menina que roubava livros, Travessuras da menina má era item obrigatório entre as velhas seguidoras de Nora Roberts e as mocinhas pseudo-intelectuais da Vila Madalena. Estranho. Afinal, o Vargas Llosa estava alguns degraus acima do Khaled Hosseini e do Markus Zusak. Será que o nível cultural da população estava crescendo? Seriam os resultados do PAC? A Era de Aquário?
— Será?
— Aaaiii!
Agora, o pior pesadelo da América se tornou realidade. Depois dos ataques nucleares, o país imerge na geleia escura do caos. Sem combustível, as pessoas precisam caminhar. Com o colapso da indústria, são obrigadas a plantar e iniciar pequenas pecuárias. Não há internet, celulares nem shows da Lady Gaga. Sem eletricidade, a única diversão à noite é sexo fácil e cachaça de batata. A maconha está liberada — afinal, os agentes da lei têm outras prioridades.
Meu deus, quem poderá nos devolver a paz?


Jericho: first season
2006
Seja.Sinta.Saiba.: Quanto mais a pessoa lê, mais sua vida anda um marasmo. Você concorda?
John Dunning: Não concordo. Nunca considerei a leitura perda de tempo, ou jamais teria feito dela meu ofício. Não acredito que literatura seja mero escapismo. Ela molda, relaxa, proporciona conhecimento de outras épocas, lugares etc.
SSS: Você deseja concluir mais um ou dois livros protagonizados por Cliff Janeway. Com seu DDA e enfermidades que o acometeram nos últimos anos, o que o faz continuar escrevendo?
JD: Um escritor jamais deixará de sê-lo. No momento, estou parado por conta da doença, mas passo o tempo todo pensando no próximo livro. Tudo ao meu redor é material para um romance.
SSS: Aqui, muita gente acredita que literatura “salva”, como uma religião. Você acredita nisso? E romances policiais, eles também podem “salvar”?
JD: Nunca ouvi falar disso, que livros podem “salvar”. Concordo que eles são mágicos e capazes de transformar a pessoa em alguém melhor. Se eles conseguirem te libertar dos problemas cotidianos, do caos no mundo etc., acabam por se tornar maravilhosos para o espírito.
SSS: Alguns afirmam que os videogames são criação do demônio. O bullying é creditado, dentre outras coisas, a jogos eletrônicos. O que aconteceria se crianças e jovens parassem com videogames e começassem a ler romances policiais por horas a fio? A sociedade incriminaria os livros e condenaria seus autores como corruptores de menores?
JD: Gente religiosa sempre arruma alguma sarna pra se coçar. O que realmente me preocupa é crianças e jovens não lerem absolutamente nada. A mim, tanto me importa o que leem, meus livros, os da Patrícia Cornwell ou do Dennis Lehane, pois, deles, sempre extrairão algo. Toda vez que abrirem um livro acrescentarão conhecimento àquele que possuem.
SSS: A morte é necessária na sua profissão. Como você, um escritor policial, enxerga a morte?
JD: É triste demais quando alguém morre antes do tempo. Quando você escreve e a morte chega para um de seus personagens, simplesmente aceita e segue em frente. Agora que encarei a morte de perto, eu a temo muito menos do que costumava temer. Gostaria de ter tido mais tempo para escrever, mas estou contente pelos meus doze livros publicados.
SSS: E, finalmente: Obama, McCain ou nenhum dos dois?
JD: Espero que seja o Obama, mas não me preocupo muito com isso. Qualquer um será uma grande melhora em relação ao Bush.
(Entrevista cedida em 17 de junho, por e-mail.)
Capítulo segundo
No qual nada ocorre, a não ser conversas
Capítulo décimo segundo
No qual o herói fica sabendo que tem uma auréola ao redor da cabeça
Capítulo décimo quinto
No qual se prova de modo convincente a importância da respiração correta
Capítulo décimo sexto
No qual se prenuncia um grande futuro para a eletricidade
Então eu compreendi que meu trabalho era inútil. Não se esgota o mar com uma colher.